Há muitos anos que denuncio o preconceito das esquerdas contra a agricultura. O termo agrobusiness ou agronegócio tornou-se sinônimo de palavrão. Um rapaz deixou comentário num post recente, com a entrevista de Aldo Rebelo para o Paulo Henrique Amorim, xingando o parlamentar de "amigo do agrobusiness". Ora, estritamente falando, toda agricultura é agrobusiness. A divisão entre agricultura familiar ou pequena agricultura e o agrobusiness é arbitrária e falha. Existe, por um lado, uma agricultura de subsistência, hoje totalmente marginal no país, e que não conta. E temos uma grandiosa agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção de alimentos para o consumo interno brasileiro, e uma poderosa agricultura voltada para a exportação. Ambas são negócio. Ambas usam ferramentas de trabalho complexas. E se a agricultura familiar é mais atrasada, usa menos máquinas, menos fertilizantes, isso não é uma qualidade sua, é um defeito. Os agricultores mais diligentes, ou mais sortudos, ou mais organizados, tem conseguido obter financiamentos e estão tentando se modernizar. O governo tem muitas linhas de crédito para eles, o difícil é, como sempre, vencer a burocracia e a ignorância das agências rurais.
Entretanto, é preciso entender que o pequeno agricultor ambiciona se tornar médio, e o médio quer se tornar grande. Não podemos folclorizar a agricultura familiar. Não podemos fetichizá-la. É um trabalho insano, que envolve quase sempre a exploração de mão-de-obra infantil, os filhos do proprietário. Em todo Brasil, a renda média da agricultura familiar oscila de 1 a 2 salários mínimos, em média. No nordeste, a renda média é inferior a um salário. O pequeno agricultor só vive bem na Europa porque se beneficia de pesados subsídios do governo. Aqui, não; nem há planos para tê-los, já que a luta do Brasil é justamente para que a Europa acabe com esses subsídios, para que nossos produtos agrícolas possam competir com os de lá em pé de igualdade.
O esforço da sociedade tem de ser no sentido de fazer com que este pequeno produtor ganhe escala, aumente sua produtividade, compre um pouco mais de terra, e possa melhorar o seu poder aquisitivo, de maneira a ter os mesmos direitos de consumo que tem o homem da cidade. Se hoje um garçom na cidade do Rio de Janeiro pode ter um celular, um laptop e uma boa televisão, é justo que o homem do campo, que não tem fim de semana nem férias, também goze das novas tecnologias que o mundo oferece, e não apenas por prazer, mas para ampliar seus conhecimentos e aprimorar a sua atividade.
Há problemas graves na grande agricultura, como o uso indiscriminado de agrotóxicos, mas esse é um problema de governo e do congresso, que não regulamentaram o tema com a severidade que ele merece.
O que eu vejo é uma demonização política e moralista da figura do produtor rural; explicável historicamente, contudo. A evolução econômica do Brasil foi marcada pelo antagonismo de uma classe urbana progressista versus uma classe agrária conservadora. Essa oposição ainda existe, mas grande parte de seus fundamentos ruíram, em virtude do próprio desenvolvimento histórico. Não existe mais escravidão no campo, por exemplo. Há casos isolados, que são combatidos duramente pelo Ministério Público. Há exploração do trabalhador, o que também é combatido, pelos sindicatos de trabalhadores rurais, presentes e atuantes em todas as cidades brasileiras. Hoje em dia é mais raro um fazendeiro contratar um trabalhador sem carteira assinada, em função dos riscos em que ele incorre. Os financiamentos públicos estão cada vez mais republicanos. Antigamente, bastava ser amigo do gerente do Banco do Brasil para obtê-los, hoje são necessários trâmites burocráticos que excluem essas facilidades.
Pense que a pequeno agricultura é tão "business" quanto a grande. Precisa dos mesmos serviços comerciais, dos mesmos insumos, das mesmas máquinas (apenas menores), da mesma infra-estrutura.
A produção de soja também é vítima de preconceito. É demonizada como se fosse algo maligno, e se os fazendeiros fossem pessoas más. Tolice. Um fazendeiro de soja é um capitalista tão bom ou mau quanto um fabricante de sapatos ou o dono de um mercado médio (ou grande, não importa) na periferia de Recife. É lenda também a história de que a soja não gera empregos. A produção mecanizada gera menos empregos na fazenda, mas os gera nas atividades subsidiárias, como nas fábricas que produzem as máquinas, para mencionar apenas um segmento beneficiado pela mecanização. A maioria das máquinas usadas na agricultura brasileira são produzidas no Brasil.
O mais importante a ressaltar, porém, é que a soja não é uma commodity de função meramente especulativa, um produto abstrato cuja venda beneficia somente nababos de Goiás e corretores de São Paulo ou Nova York. Tanto a soja quanto o milho são as principais matérias usadas na fabricação de rações para alimentar bois, porcos e aves. Ou seja, a soja hoje tem importância capital na segurança alimentar do mundo. É contraditório que as mesmas figuras que demonstram indignação ao ver tanta fome na África não compreendam que a soja brasileira evita que o mesmo se passe na China.
Quanto ao uso de soja e milho para produção de etanol, aí é uma imbecilidade criada pelos americanos. No Brasil, usa-se a cana-de-açúcar, que tem muito mais produtividade e cujo preço não afeta tão diretamente o custo dos cereais no mundo. De qualquer forma, o "combustível verde", que parecia uma ideia genial, tanto que Lula passou a fazer propaganda dela em todo planeta, hoje já não empolga tanto. Pode ser uma alternativa, mas sempre será parcial, e deve ser muito bem regulada e controlada, para que não ocupe terras dedicadas ao cultivo de alimentos.
O fato é que o mundo cresceu muito nos últimos anos, e bilhões de seres humanos subiram um pouquinho na escala social, sobretudo nos países emergentes. Lula não foi o único presidente que logrou melhorar a vida dos pobres. Outros também conseguiram, e todas essas pessoas estão querendo comer mais e melhor. A exportação de carne pelo Brasil vem crescendo exponencialmente por causa disso. Em visita a China, a presidente Dilma conseguiu fechar acordos para que o Brasil possa exportar carne suína ao gigante asiático. O chinês come basicamente carne de porco, bastante frango, mas pouquíssimo carne bovina. As perspectivas são muito promissoras.
Em todo esse imbróglio, o Brasil está magnificamente posicionado. Tem tudo para se tornar, de fato, o grande celeiro do mundo. Para tal, precisa ter preocupações rigorosas com o meio ambiente, com suas reservas subterrâneas de água, com seus rios. Não podemos, contudo, alimentar preconceitos contra os empresários rurais. Desde que haja fiscalização ambiental e social eficazes, ou seja, desde que eles paguem salários dignos a seus trabalhadores e cuidem do meio ambiente, devem ser vistos com respeito e admiração pela sociedade brasileira.
Em relação à reforma agrária, ela é um problema social ainda premente no Brasil, mas não é de responsabilidade dos agricultores; a estes cabe produzir, e o estão fazendo muito bem. A produtividade agrícola no país tem crescido a taxas extraordinárias e já está entre as mais altas do mundo, de maneira que a área plantada nacional tem se mantido estável ou mesmo em declínio, embora a quantidade produzida tenha se multiplicado em várias vezes. Com isso, desmata-se menos. Há representantes políticos dos produtores que são reacionários e contra a reforma agrária, mas a esquerda tem parte da culpa porque, ao destilar sua ignorância e preconceito contra os empresários rurais, ajuda os representantes políticos mais conservadores ligados ao agronegócio a se elegerem. Entretanto, mesmo essa acusação não é muito justa, pois é a cidade e sobretudo seus setores médios que tem elegido os representantes mais retrógrados, como Bolsonaro, Indio e Maluf. E o número de representantes eleitos ligados à agricultura familiar tem crescido muito nos últimos anos. Muitos prefeitos hoje tem políticas agrícolas bastante progressistas e atenciosas em relação à pequena propriedade familiar, e temos atualmente um bom número de parlamentares vinculados ao segmento.
Os interesses da pequena agricultura familiar e da grande agricultura comercial, no entanto, não são antagônicos. Ao contrário, coincidem em muitos aspectos. Ambos precisam de boas estradas, de insumos a preços baixos, de uma política inteligente para os preços, de seguro agrícola. Além do mais, o homem da cidade muitas vezes não sabem sequer diferenciar um agricultor familiar de um empresário agrícola. A diferença é profunda entre um capiau analfabeto e um grande empresário rural que mora em São Paulo, mas há agricultores que são donos de razoável extensão de terra e trabalham com grande diligência e esforço junto a seus familiares; é a agricultura familiar E empresarial. Se você pensar bem, todavia, verá que a agricultura familiar tem um quê de autoritário e antidemocrático, ao impor ao filho que siga os passos do pai... Não podemos impor isso à juventude rural. Vivemos um país (em tese, ao menos) livre. Mais uma razão para não fetichizarmos a agricultura familiar. O importante é termos uma agricultura economica, ambiental e socialmente saudável, ponto, independente se é familiar ou não.
Há diferenças ainda entre os diversos produtos agrícolas. A produção da soja em pequena escala é inviável economicamente. Para alterar isso, ou mudamos o regime político do Brasil, instalando gigantes cooperativas soviéticas no campo, ou proibimos a produção de soja. E qualquer queda na produção brasileira de soja, hoje, provocaria uma catástrofe alimentar no planeta. Seja qual for a ideia que tiverem, tenham senso de responsabilidade.
A reforma agrária deve acontecer em harmonia com o desenvolvimento dos fatores econômicos, estruturais e tecnológicos ligados à agricultura. É a velha história: não adianta dar terra lá no interior da Amazônia, onde não há estradas para o sujeito escoar sua produção. Agricultura hoje é um negócio que requer alta especialização e uso de tecnologia específico, mesmo no âmbito da agricultura familiar.
Nos últimos anos, a agricultura familiar no Brasil fortificou-se de maneira impressionante, em virtude de seu esforço para se modernizar e, claro, graças também a programas de financiamento como o Pronaf, que eram pífios antes do governo Lula. Com os preços de produtos agrícolas em alta, não só no Brasil, como no mundo inteiro, a economia rural brasileira vai experimentar um novo ciclo de crescimento e geração de emprego. Pequenos poderão se tornar médios e médios poderão se tornar grandes. Não há nada de mal nisso. É a lei da vida. O agricultor também é filho de Deus e tem tanto direito de querer melhorar de vida como tem o dono de um restaurante no ABC paulista. A esquerda deve usar a luta política para trazer o agricultor para o seu campo, porque ele também é um trabalhador, e precisa de políticas públicas especiais, mais do que qualquer outro empresário, pois pertence a uma atividade primária, que é ao mesmo tempo de importância estratégica e de alto risco, com baixa remuneração; e não afastá-lo, satanizando políticos como Aldo Rebelo, como sendo "amigo do agronegócio". Aldo viajou o Brasil todo, conversando com pequenos produtores em toda parte. É amigo do agronegócio sim, porque o agronegócio não é nenhuma atividade do mal, da qual devemos ser inimigos. A comida na sua mesa vem do agrobusiness, porque mesmo que tenha sido um pequeno que a tenha produzido, e nem sempre o é, isso também foi um "business". Toda carne que você ingere vem de frangos, bois ou porcos alimentados pelo milho e soja do agronegócio...
Então vamos tentar olhar para a classe rural com mais compreensão, e nos esforçamos para tirá-la das garras da direita partidária. A segurança alimentar do mundo está em risco e o Brasil é um dos raros países que pode ampliar substancialmente a oferta agrícola no médio prazo. O governo e a sociedade, portanto, devem ampliar o apoio que dão à agricultura, e tentar trazer ainda mais gente para o campo, através de reforma agrária que aumente o acesso à terra. Nosso inimigo é o capital especulativo, não o fazendeiro diligente, seja pequeno ou grande, que alimenta o Brasil e o mundo.
Escrito por Miguel do Rosario
Fonte-oleo do Diabo

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